"e impressiono-me simultâneamente com a pouca coesão do que escrevo, a falta de lógica do que penso.Mas eu tinha uma ideia. Apalpo o ar em tentativas e não não, não vou seguir pelo lado dos apalpões pois é demasiado perigoso. Ruas sem saída. Ruas de um sentido. O pior são ruas de um sentido sem saída. Odeio ideias assim e ainda odeio mais pessoas assim. Mas não vamos por aí.
Queria um pouco de nexo, algo mais complexo, um poema, um reflexo, em poema:
Queria um pouco de nexo,
algo mais complexo,
um poema, um reflexo
desta substância que tento.
Queria a cor desta loucura
ou saber apenas de onde vem
este algo que me revolve,
este sem sentido que me move.
Um poema tão conexo como o que escrevo. Deve ser bom, só saberei amanhã. Queria um pouco de nexo, algo mais complexo, um poema, um reflexo do que penso. Penso nisto, neste texto. Deve ser bom. Só saberei amanhã. "
Parte de um texto maior que escrevi uns dias atrás.
A textura das Palavras
terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
sábado, 30 de Janeiro de 2010
Vácuo
Já não escrevo há tempo demais. Olho escassamente o teclado ou o relógio ou a janela. Espreito a minha mudez afundada algures, rouca de tão pouco falar. A voz da minha mãe ecoa pela casa mesmo quando ela não está, vem a subir o elevador ou a abanar o telefone, vem no silêncio das tardes sozinho em que ela fala sem eu escutar. Esgoto-me pelo cansaço, corro até um estado demasiado pesado para pensar em escrever. Leio de vez em quando, para afastar a culpa e esconder a culpa de me sentir culpado. Falta-me a solidão. Farejo distante o cheiro do vazio das tardes de chuva, sinto o perfume da vertigem da angústia e entretenho-me a recordar passos no escuro. Um remoinho de vento na noite a levantar folhas de outono, a olhar o chão enquanto um pontapé mais largo festeja no ar o prazer do tempo, esse estado na aresta do tédio, esse momento de escrever. Tento fingir, uso a imaginação e falo de noite e de tédio, engano-me até ir alcançar o tal ponto negro no meio da noite. Tento também ignorar as vozes estridentes da televisão em que se ouve a minha mãe a falar e uma ou outra pessoa que se adivinha miserável apenas pelo tom. Estava tão bem e parei para reler até que voltou a isto. Falta sentido ao que digo. Se me vem o conteúdo não lhe tomo a forma e se tem forma é sempre raro o conteúdo. O romance não lhe pego há anos. Deve estar a apodrecer algures num canto. Isto se não estiver já morto, asfixiado e subnutrido de ossos pendurados num cabide no armário, o meu esqueleto no armário, Este é o tal peso dos meus ossos, o cheiro a cadáver que tento esconder com faixas e brocados de cor, ou mesmo negros e cinzas que repugnem quem tente roçar de leve. Eu pendurado a olhar o espelho que há no verso da porta do guarda roupa, a adivinhar no escuro que habito lá dentro os ossos a caírem do cabide azul dos chineses que aguenta tudo, a esperar que eu vá ao mesmo tempo abrir a porta lá de fora. Não sei se abro demasiado ou se não abro há muito tempo. A noite escura, um pontapé no vazio oco e inodoro do ar. Tiro o chapéu há noite, convido-a a entrar como se faz às senhoras, trato dela com o charme que tenho e pergunto-lhe se gostou, se quer voltar e voltar àquela intimidade que perdemos com o tempo que não existiu para nós. Amanhã apanho-a a uma hora que desconheço, vou esperar, aguentar este capricho sedutor de mulher. Amo a inspiração ou capacidade ou vontade ou solidão ou paixão por ser uma mulher, por me fazer sofrer com tão pouco de um sorriso. O descabido sentido do que faz leva-me onde todos quiseram ir: ao vazio do que sabemos.
domingo, 24 de Janeiro de 2010
Pessoas no papel
Entretanto esqueço os motivos, a cabeça está mais quente, penso em Deus e na sua possível existência e também no Lobo Antunes, tenho saudades dele, daquela escrita exageradamente complexa, da humanidade intrínseca do que escreve, da profundidade dos sentimentos e pensamentos humanos e como é necessário ser-se demasiado complexo para os escrever. É psiquiatra o senhor. Talvez isso o ajude. Agora lembro-me do Gogol e dos russos que conta, dos outros russos e recordo o patriotismo sentimental e apaixonado pela sua raça, talvez nem pela a pátria mas sim pelos próprios russos, o amor à personalidade extravagante e tão humana dos gigantes da neve (será este um bom nome?), aquele Dostoievski tão cru. Como as letras tornam a humanidade interessante e apaixonante. Alguns dias atrás um amigo que raramente vejo disse-me que segundo o que andava a estudar (a inveja que lhe tomo) a literatura era a alteração da percepção quotidiana das coisas, Por exemplo um porta que vês todos os dias mas que quando é (d)escrita assume uma nova e diferente dimensão e importância. Estamos de tal forma acostumados a nós e à nossa condição humana que a banalizamos, viramos portas. A escrita altera isso e espelha-nos como raramente nos vemos. Por mim prefiro a versão escrita, ou a versão pensada, vá, a versão longa, à banalidade rasa dos dias.
sábado, 23 de Janeiro de 2010
Gastroentrite
Hoje o dia é mais comprido, arrasta, demora-se na inércia e nada acontece. As nuvens mudam com a luz, uma paleta de cores que se vai esbatendo. Agora o céu é quase dourado, demora-se nos prédios mais que feios que se avistam da janela da minha sala, e o dia continua num vagar de estar doente. Deve ser das mantas. O calor amolece a vontade e só consigo ir vendo o que passa, passivo, a ver o dia escorrer em tons ora cinzentos ora prateados ora azuis. Abolia, doença, gastroentrite segundo dizem os médicos. Já nem alterco com a minha vontade, deixo-a embrulhada entre duas mantas, de frente para a televisão. A lassidez do dia, a dor que já não tenho no estômago, a noite discutida entre lençóis encarquilhados e febres, a praia a que não fui. Hoje o dia não é dia, é um esboço, uma paleta. Um vagar vago, o tempo que raramente tenho.
Abraça-me
Não vês que estou doente!,não me chateies não me chateies hoje! Abraça-me só, abraça-me porque eu sei que fiz mal e que não devia ter comido aquilo e sim sei que me avisaste e sim sim!, estou farta de saber isso tudo e sim tens razão, tinhas razão, mas agora abraça-me, só. Não fales nem me digas que me avisaste que eu sei e essa prepotência toda só não me irrita mais porque estou frágil, de tal forma que nem te digo Não vês que isto não é sobre ti mas sim sobre mim sobre eu estar doente?, nem te atiro à cara essas insistência de Bem te avisei com que não perdoas os meus erros, nem te explico nada nem me revolto ao sinal das tuas insistências de pai. Abraça-me só, não me obrigues a falar, eu não quero falar, estou doente e sou tua mulher por isso aperta-me e envolve-me, deita-te comigo e respira no meu ouvido e por favor não me obrigues a pedir-te isto, vem, vem ter comigo e pára de te queixar da minha doença e da minha estupidez que não é isso que vai mudar nada, eu já fiz já fiz e fiz asneira e não quero que me desculpes como costumas fazer, quero que me ames, que venhas sem eu dizer nada e me abraces e não digas nada com que eu concorde ao ponto de me irritar por teres razão. Quero que me ames e te voltes para mim e te deites ao meu lado sem dizer nada, a respirar no meu ouvido e a cerrar os braços em torno do meu corpo. Isso, vem, não digas mais nada nem faças perguntas, isso, abraça-me, Eu também, eu amo-te.
sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010
Nietzsche
Entre muitas e até melhores frases, leio:
"De quanto se escreve, só amo o que alguém escreve com o seu sangue. Escreve com sangue, e descobrirás que o sangue é espírito.
Não é nada fácil compreender o sangue alheio; eu detesto todos os que lêem como ociosos"
"De quanto se escreve, só amo o que alguém escreve com o seu sangue. Escreve com sangue, e descobrirás que o sangue é espírito.
Não é nada fácil compreender o sangue alheio; eu detesto todos os que lêem como ociosos"
Os Homens
Impressiono-me quando (alguns) homens falam sobre mulheres. Nos últimos dias aconteceu inúmeras vezes. Falam sobre objectos, com qualidades e defeitos, discutem prós e contras, falam dos custos implícitos,e no fim pesa a utilidade, Dá para o gasto. Também gosto quando no fim de todos os defeitos, listas infindáveis, apesar de tudo, Ela é boa. Hoje vi uma "cachorrita jeitosa". Não sei se é pior a comparação a objectos se a animais. Quando são pessoas que conheço olham-me no fim, qual cumplicidade, à espera da habitual compaixão masculina e depois sorriem colmatando a minha abstenção. Quase tenho vergonha, não de não responder, mas de saber que me podem associar a eles.
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